Soneto XVII

Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo:
te amo como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma.

Te amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascendeu da terra.

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
te amo diretamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira,

senão assim deste modo em que não sou nem és
tão perto que tua mão sobre meu peito é minha
tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.

Pablo Neruda

Soneto XLIV

Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.
Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.
Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.
Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.
Pablo Neruda

Coração Couraça

Porque te tenho e não
porque te penso
porque a noite está de olhos abertos
porque a noite passa e digo amor
porque vieste a recolher tua imagem
porque és melhor que todas tuas imagens
porque és linda desde o pé até a alma
porque és boa desde a alma a mim
porque te escondes doce no orgulho
pequena e doce
coração couraça
porque és minha
porque não és minha
porque te olho e morro
e pior que morro
se não te olho amor
se não te olho
porque tu sempre existes onde quer que seja
porém existes melhor onde te quero
porque tua boca é sangue
e tens frio
tenho que te amar amor
tenho que te amar
ainda que esta ferida doa como dois
ainda que busque e não te encontre
e ainda que
a noite pese e eu te tenha
e não
Mário Benedetti

Nada é por acaso...


Quando vi o arquivo no pc com o nome "Entre por essa porta", a mente viajou... Eu entrei. No início pensei ser apenas um arquivo de músicas cifradas. Mas não era. E meus olhos foram enchendo de água. Linha por linha, eu fui lendo o que sempre esperei ouvir. O que sempre soube. O que sempre cantei. O que sempre senti. As palavras de um sentimento que aumenta, ou revigora-se, há 16 anos. Hoje, e como em todos os dias 22 de outubro desses 16 anos, sinto a vontade de te dizer que você É A MULHER DA MINHA VIDA e que com você QUERO VIVER ATÉ O MEU ÚLTIMO SUSPIRO. Muitos não entendem. Outros condenam. Alguns invejam. São oito fragmentos de músicas que eu poderia perfeitamente ter montado. Talvez com algumas músicas a mais. Eu procurava algo para postar nesta data. Alguma coisa que mostrasse ao mundo o que significa essa palavra, ESSE SENTIMENTO, que nos une de forma tão intensa. Que nos faz cúmplices de uma louca e bela história. Que nos faz ser o que somos.
QUANDO NÃO ESTÁS AQUI, SINTO FALTA DE MIM MESMO E SINTO FALTA DO MEU CORPO JUNTO AO TEU. QUANDO NÃO ESTÁS AQUI, TENHO MEDO DE MIM MESMO E SINTO FALTA DO TEU CORPO JUNTO AO MEU. QUANDO NÃO ESTÁS AQUI, MEU ESPÍRITO SE PERDE, VOA LONGE, LONGE...

Uma resposta, duas músicas, o mesmo sentimento

Uma carta.. oito músicas... um sentimento

Entre por essa porta agora, e diga que me adora, você tem meia hora pra mudar minha vida... Só porque meu coração dispara, quando tem o seu cheiro, dentro de um livro... Aí eu me desespero e ando pelo mundo, divertindo gente e chorando... ao telefone... E quando ando pelo mundo... meus amigos cadê??? Meu amor cadê você, eu acordei, não tem ninguém ao lado... Por isso agora a porta está trancada, para todos os gritos, para todas as mentiras... Mas eu pulo a janela, será que eu estou trancada aqui dentro??? Será que você está trancado lá fora??? Pois sem você... sem você... nem o tempo me faz companhia, o silêncio dessas horas frias são palavras que não sei dizer... Pois hoje eu queria te encontrar de qualquer jeito... Pra te abraçar... e ouvir qualquer palavra sua... ou qualquer frase exagerada que me faça sentir VIVA... Hoje, preciso de você... com qualquer sorriso... hoje, só tua presença vai me deixar feliz... SÓ HOJE... Porque sabe aqueles dias em que horas dizem nada... e você nem troca o pijama e preferia estar na cama... pois é... Sem poder nada fazer, sem que tento me vencer e acabar com a mudez...mas na verdade nada esconde essa timidez... eu carrego comigo a grande agonia... de dizer... SÓ VOCÊ... SÓ VOCÊ... QUE CONHECE MEU JEITO DE SENTIR... MEU JEITO DE SORRIR E ATÉ MEU JEITO DE CHORAR... SÓ VOCÊ ME CONHECE AMOR... SÓ VOCÊ SABE BEM QUEM SOU... Por isso fecho os olhos pra não ver passar o tempo... Sinto falta de você... Sem você não sei viver... Então vem, que eu conto os dias e contas as horas pra te ver... Eu não consigo te esquecer... Então vem...que nos teus braços esse amor e uma canção... EU NÃO VOU SABER ME ACOSTUMAR... SEM SUAS MÃOS PRA ME ACALMAR, SEM SEU OLHAR PRA ME ENTENDER... SEM SEU CARINHO AMOR... SEM VOCÊ... VEM ME TIRAR DA SOLIDÃO... FAZER FELIZ MEU CORAÇÃO... JÁ NÃO IMPORTA QUEM ERROU... O QUE PASSOU... PASSOU...

A ponte

Para cruzá-la ou não cruzá-la
eis a ponte

na outra margem alguém me espera
com um pêssego e um país

trago comigo oferendas desusadas
entre elas um guarda-chuva de umbigo de madeira
um livro com os pânicos em branco
e um violão que não sei abraçar

venho com as faces da insônia
os lenços do mar e das pazes
os tímidos cartazes da dor
as liturgias do beijo e da sombra

nunca trouxe tanta coisa
nunca vim com tão pouco

eis a ponte
para cruzá-la ou não cruzá-la
e eu vou cruzar
sem prevenções

na outra margem alguém me espera
com um pêssego e um país

Mário Benedetti

A hora íntima

Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: – Nunca fez mal...
Quem, bêbedo, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: – Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: – Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: – Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: – Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?

Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Vinicius de Moraes

Sossega, coração...



Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solene pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.
Fernando Pessoa

Quero

Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

Carlos Drummond de Andrade