Carta para uma menina...

Não. Hoje não é você que eu quero.
Você chega a qualquer momento,
Não pede licença.
Apodera-se dos meus pensamentos.
É sempre a mesma coisa, o mesmo jeito.
Seu cheiro perfeito, presença que conforta.
Não, hoje não é você que quero.
Sei que você me faz companhia,
Aparece todos os dias,
Me ajudando a caminhar.
Mas hoje, não é você que quero.
Sua imagem é luz nos meus dias,
Sei que é do coração que cativas,
E surges linda, dia após dia.
Mas hoje, hoje não é você que eu quero.
Sei que vais entender,
E poderás até me ajudar.
Vá, saudade.
Só por hoje preciso dela de verdade.

É preciso...

...
É preciso ternura pra viver esse tal de amor.
Pra sair cantando,
Talvez assoviando,
Um olhar que fita só.

É preciso paciência pra viver esse tal de amor.
Encontrar a entrada sem saída,
Apenas uma hipótese ainda,
Deixarei de ficar só.

É preciso espontaneidade pra viver esse tal de amor.
Pra mostrar o desejo,
Talvez por um beijo,
Nunca mais ficarás só.
...

Desejo pra hoje...


Quem pergunta quer resposta

...
O que era abstrato assemelhou-se ao concreto, às experiências vividas. Um mesmo enredo que pode confundir e também seduzir. Tudo pode(ria) ser real. E tudo pode(ria) parecer apenas abstração. Mas tudo isso foi pensado depois que a resposta sumiu. Ou apenas deixou de chegar. Incomunicável, fiquei sem entender e questionar: Se fiz alguma coisa errada ou se foi ironia fina do destino. Apenas a vida brincando comigo...
...

Tem uma brisa leve chegando...

...
Meu grito é de um silêncio terrível
Já não ouves, já não sentes...
Teus olhos se perderam no tempo
E já não sei se conseguirás chegar
[e sossegar]
Nem se tens coração para ver
O que importa é que tentei
E que não desisti de você
Eu apenas não poderia me deixar
Se preciso for, colocarei a mão no fogo
É preciso [sobre] viver...
...





O Futuro do pretérito


Hoje a vi novamente, e como sempre: tão linda quanto nunca. Por mais que eu programe a mente o danado do coração tem vontade própria. Por mais que eu tenha consciência de que passou, ele dá jeito de pulsar diferente. É claro que o tempo é outro, a vida segue e os desencontros aumentam. É certo que esse amor inefável transcende o tempo, o espaço e é incomparável. Consegue sentir no peito a dor do outro, mesmo que distante. Chora por saber que algo não anda certo e que não pode fazer (mais) nada. Ver a alma gritando, pedindo ajuda, e precisar exercitar a paciência, virtude sempre em provação. Hoje me vi novamente, e como sempre: te amando. Contudo, agora calado.

O mar me acalma...


...
No mar vejo minha vida
Minhas tormentas, tempestades, naufrágios...
Águas revoltosas, mas também tranqüilas
Minha paciência, tolerância e calmaria...
No mar vejo minha vida
Admiro o horizonte
Que sempre sonhei abraçar...
Mas vamos com calma,
Eu já vou chegar.
...

Não sou mais, nem menos...



Tenho um pouco de tudo...
E de nada.
Tenho sentimentos inesgotáveis, inimagináveis...
Que sufocam e me calam.
Sigo assim mesmo...
Com todas as rugas que a vida me proporciona
Não sou mais, nem menos.
Sou o conjunto de todas as coisas
E situações que vivi.
Sou o que dizem de mim,
O que faço de mim...
Sou uma parte igual do todo
Dividido pela semelhança
De todos com quem convivo.

Soneto de quarta-feira de cinzas

Por seres quem me foste, grave e pura
Em tão doce surpresa conquistada
Por seres uma branca criatura
De uma brancura de manhã raiada



Por seres de uma rara formosura
Malgrado a vida dura e atormentada
Por seres mais que a simples aventura
E menos que a constante namorada



Porque te vi nascer de mim sozinha
Como a noturna flor desabrochada
A uma fala de amor, talvez perjura



Por não te possuir, tendo-te minha
Por só quereres tudo, e eu dar-te nada
Hei de lembrar-te sempre com ternura.

Vinicius de Moraes. Rio, 1941

Talvez...



...
Minha sede talvez não tenha cura...
Nem minha metade, nem a procura.
Talvez o caminho fosse outro...
Nem alegria, nem infortúnio.
Vejo as marcas deixadas
Das unhas, nas minhas costas...
Do gosto, na boca...
Da saudade, no coração...
Talvez minha sede não tenha cura...
Seja na vida ou na loucura.

...

Onde fica o botão?

Em algum momento da vida, ao menos num breve instante, você tem algum tipo de paranóia sobre a própria existência. De onde vim, pra onde vou, o que estou fazendo aqui, são perguntas que atormentam a vida de muita gente. Delas derivam-se outras tantas. Talvez não tão filosóficas, porém, igualmente recheadas de construções complexas que exigem um profundo exercício mental. Já percebi que até hoje nunca as consegui responder satisfatoriamente. Eu pertenço a classe dos que sempre quer saber o porquê. Azar o meu. Sou bombardeado dia-a-dia com situações em que é imperativo saber precisamente o que está acontecendo. Mas as respostas não chegam ou as dúvidas são pouco dirimidas. Também sou vigilante quanto a qualquer possível viseira que dificulte a perfeita visão da realidade. Mas sabe de uma coisa? Pelo menos por enquanto, quero pensar pouco. Alguém sabe onde fica o botão do piloto automático?

Dentro de mim...

O corredor é longo
Pessoas vêm e vão
Não sinto o perfume de ontem
Nem tenho a certeza do amanhã
Procuro pelas frestas, a resposta
Encontro ecos em direções diversas
Precipito-me ao olhar para o lado
Vejo-me apenas em teus braços
Ainda que tudo pareça contrário

Minha vida tem o teu nome
Teu rosto insiste em aparecer
Já não me preocupo se o tempo é curto
Tenho tudo que a vida quer dar
Tenho o coração que faz pulsar
Esse desejo ardente, impulsivo, gratuito
Que aumenta sempre e a todo instante

Nada é igual ou normal
Você conhece as diferenças
O que é diferente
Como sinto, como vejo
Agora estás tão longe
Mas tão dentro de mim
Tão presente
Que meu medo passa
Só não passa essa vontade
De viver o que não vivi
Bem pertinho de ti